A Espanha lidera mesmo a adoção de IA nas PME?
Jorge García
Tecnea

Depende de a quem se pergunte, e de como. Uns dados dizem que sim, com força. Outros, com metodologia muito diferente, veem pouca adoção real. Analisamos os números — com a sua fonte e a sua letra pequena — para que cada um tire a sua própria conclusão.
Um inquérito recente — 4.000 responsáveis de PME em cinco países europeus — situa a intenção de investimento espanhola em IA para 2026 nos 35%, quase um terço mais do que há um ano (22% em 2025), e apenas um ponto atrás de França. Só com este dado, a resposta à pergunta do título pareceria um sim rotundo.
Fonte: YouGov, inquérito encomendado pela IONOS a 4.000 responsáveis de PME em 5 países (Espanha, n=514), jan-mar 2026. Mede intenção de investimento declarada, não uso real verificado — e quem encomenda o estudo é um fornecedor de serviços digitais com interesse em que a digitalização avance.
Mas há um segundo dado, de um estudo diferente, que convém colocar ao lado do primeiro antes de tirar conclusões:
Cerca de quatro em cada dez PME espanholas ainda não têm nenhuma política que regule o uso de aplicações de IA.
Sem saber que informação pode entrar numa ferramenta de IA e qual não. Sem controlo de quem a usa, para quê, nem com que dados. Adotar depressa e adotar com critério não são, necessariamente, a mesma corrida.
Antes de continuar, uma precisão que nos parece importante tornar explícita: este segundo dado vem do SMB Cyber Readiness Index 2026 da ESET, uma empresa de cibersegurança, sobre 4.400 responsáveis de PME em 13 países (400 em Espanha). A amostra é ampla e a metodologia é pública. Mas convém ter presente: quem publica o dado vende precisamente as ferramentas para resolver esse vazio de controlo. Isso não inverte o número — os 38% em Espanha são o dado real que o estudo recolhe —, mas é o tipo de detalhe que convém sempre verificar antes de citar um inquérito como verdade absoluta.
87% diz usar IA. Um estudo diferente, com dados reais, diz 2,9%
Se se procuram números de adoção de IA em PME espanholas, encontram-se valores muito díspares consoante quem pergunta e como. Inquéritos de perceção — onde basta responder «sim» a «já experimentou o ChatGPT alguma vez?» — chegam a falar de mais de 80% de adoção. No outro extremo está o Barómetro de adopción de la IA en las pymes españolas, elaborado pela IndesIA em conjunto com a Accenture e a Informa sobre mais de 68.000 empresas reais — não uma amostra de inquérito, mas dados de atividade económica —, que situa o uso efetivo de IA em apenas 2,9% em 2025 (face aos 2,13% de 2024).
- Inquéritos de perceção: ~35-87%. Responsáveis que declaram ter investido, planeado investir, ou que algum colaborador já experimentou uma ferramenta de IA.
- Dados de atividade económica real (IndesIA, Accenture e Informa — 68.000+ PME): 2,9%. Empresas cuja atividade económica registada incorpora IA de forma verificável.
A diferença entre os dois números explica-se em parte pela definição — «usar IA» significa coisas muito diferentes consoante o estudo —, mas também, e é isto que nos interessa, por algo mais simples: parte do uso real de IA nas empresas espanholas está a acontecer onde ninguém o mede, porque ninguém na direção sabe que está a acontecer.
A IA que os seus colaboradores já usam, mesmo que não saiba
Na Tecnea vemos com frequência um padrão que encaixa nessa diferença: colaboradores que já resolvem boa parte do seu trabalho com IA generativa, sem que a empresa lha tenha disponibilizado nem o saiba. Não o contam porque, na prática, não lhes compensa — se o seu chefe descobrir que uma tarefa passou a demorar uma fração do tempo, o mais provável é que o resultado seja mais trabalho atribuído, não reconhecimento. O fenómeno tem nome na literatura do setor: Shadow AI ou BYOAI («traga a sua própria IA»), e já há dados sérios que o sustentam, não apenas perceção.
Boa parte do uso real da IA no trabalho acontece fora da vista da direção.
O que diz o estudo mais citado do setor
- 78% de quem usa IA no trabalho leva as suas próprias ferramentas, sem passar pela empresa — sobe para 80% nas PME.
- 52% de quem a usa é relutante em admitir que a emprega em tarefas importantes.
- 53% teme que reconhecê-lo o faça parecer «substituível».
Corroborado por outras fontes
- A Ivanti (fev. 2025, 6.000+ trabalhadores de escritório) confirma o padrão: 32% de quem usa IA generativa no trabalho mantém-no em segredo. O motivo mais citado não é o medo de perder o posto — isso é referido por 30% —, mas sim querer manter uma «vantagem secreta» (36%). Mais 27% simplesmente não quer que a sua capacidade seja questionada.
- Em Espanha, o estudo People at Work 2026 da ADP situa em 15% o uso diário de IA declarado — provavelmente abaixo do real, pelo mesmo motivo.
- O custo de uma violação de dados que envolve IA não autorizada é, em média, 670.000 $ superior ao de uma violação convencional (Ponemon Institute / IBM, 2025).
Nota de objetividade: a Microsoft vende Copilot, e a Ivanti e a IBM são fornecedoras de software de segurança e gestão de TI — as três têm interesse direto em que a falta de controlo da IA impressione o leitor. Ainda assim, a magnitude do fenómeno coincide entre estudos independentes com metodologias e amostras diferentes, o que reforça que é real e não um dado isolado ou inflacionado por uma única fonte.
A conclusão prática não é alarmista, é simplesmente realista: se uma empresa não oferece uma via oficial e boa para usar IA, os seus colaboradores mais despachados vão usá-la na mesma, por conta própria — só que sem que ninguém saiba que dados essa ferramenta viu, nem possa aproveitar o tempo ganho para algo melhor do que escondê-lo.
Adotar depressa e adotar bem não são a mesma corrida
É compreensível que a adoção vá à frente da governação: quando uma ferramenta demonstra valor em semanas, é tentador alargá-la sem parar para documentar nada. O problema é que, no caso da IA, essa pressa tem um custo concreto e já conhecido — não é uma hipótese futura, é um risco de hoje.
O que acontece sem política de uso
- Dados de clientes ou processos acabam em ferramentas públicas de IA, fora do controlo da empresa.
- Ninguém sabe que informação um assistente externo já «aprendeu» sobre o negócio.
- Cada colaborador decide por conta própria que ferramenta usar e para quê.
- O RGPD é incumprido sem que ninguém o tenha decidido conscientemente.
O que a legislação já exige
- Desde fevereiro de 2025 é obrigatória a literacia em IA do pessoal que a usa.
- O Regulamento Europeu de IA alarga as suas obrigações de transparência este agosto.
- O RGPD não mudou: os dados pessoais continuam a exigir base legal e controlo, use a empresa IA ou não.
- Documentar o uso de IA deixa de ser boa prática para passar a ser exigível.
Bruxelas está a ter a mesma conversa, a outra escala
A coincidência não é acidental. No mesmo mês em que se conhece este barómetro, empresas e administrações europeias estão a pedir à Comissão Europeia regras comuns para proteger os dados que consideram críticos ou estratégicos face ao avanço da IA. Bruxelas já trabalha numa Data Union Strategy e num futuro Cloud and AI Development Act, com um argumento que resume bem o problema de fundo: depender de infraestrutura de IA alheia à Europa é um risco, não apenas um detalhe técnico.
É o mesmo debate que uma PME espanhola enfrenta quando decide que ferramenta de IA usar, só que à escala continental: onde vivem os seus dados, e quem os controla de facto?
O que fazer com isto, em concreto
Nenhuma das duas metades do quadro — adotar depressa, adotar sem controlo — tem de continuar assim. Fechar esta fissura não exige travar a adoção, exige organizá-la:
- Perguntar, sem procurar culpados, o que já se usa. Face ao que os estudos citados mostram, é provável que a resposta honesta inclua mais ferramentas do que as que a empresa «autorizou» oficialmente.
- Decidir que informação pode sair da empresa para uma IA pública, e qual nunca deve sair — a começar pelos dados de clientes e processos.
- Formar a equipa no uso básico e nos limites da IA, o que já é obrigação legal, não apenas recomendação.
- Oferecer uma via oficial que seja melhor do que a oficiosa. Se a alternativa da empresa for mais lenta ou mais limitada do que aquilo que um colaborador já usa por conta própria, continuará a optar pela segunda.
- Para o que realmente importa ao negócio, construir sobre dados próprios: uma aplicação à medida, com os dados na Europa, em vez de depender de uma ferramenta pública genérica.
Se a Espanha lidera ou não a adoção de IA depende, como se viu, de que estudo se escolha e do que se entenda por «usar IA». O que as diferentes fontes concordam em assinalar é outra coisa, mais difícil de contestar: haja ou não liderança real, o controlo vai muito atrás do uso. As empresas que fecharem essa fissura agora — saibam ou não se vão à frente — serão as que menos sustos vão levar daqui a dois anos, quando a fiscalização já não distinguir entre «não sabíamos» e «não fizemos bem».
É precisamente o tipo de ordem que ajudamos a pôr na Tecnea: saber que ferramentas de IA se usam de facto, que dados podem sair da empresa, e construir sobre isso uma IA privada e em conformidade com a lei. Se quiser ver como encaixaria no seu caso, falemos.
Este artigo é informativo e não constitui aconselhamento jurídico. Procurou-se indicar junto de cada dado a sua fonte, a dimensão da amostra quando conhecida, e se quem o publica tem um interesse comercial no resultado. Nenhuma das fontes citadas é da Tecnea.
Fontes
- YouGov / IONOS Newsroom Espanha — inquérito a 4.000 responsáveis de PME, 5 países, Espanha n=514 (jan-mar 2026)
- ESET, SMB Cyber Readiness Index 2026
- IndesIA, Accenture e Informa — Barómetro de adopción de la IA en las pymes españolas, edição 2025
- Microsoft Work Trend Index
- Ivanti, 2025 Technology at Work Report
- ADP Research Institute, People at Work 2026 (via eldiario.es)
- Ponemon Institute / IBM, Cost of a Data Breach Report 2025
- Comissão Europeia — Data Union Strategy (via que.es)
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